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“Clique Aqui Para Perder” parte de uma premissa inversa: cada burla é um documento social. Revela o que se desejava, o que se temia e, sobretudo, o que ainda não se sabia reconhecer.

Este arquivo recupera os vestígios de um Portugal em transição para o digital — as burlas, os esquemas e as fraudes que circularam na internet portuguesa entre 2000 e 2012, quando ninguém as catalogou. O objetivo é promover a literacia digital da população portuguesa e reconstituir o que essa internet era.

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O que é

“Clique Aqui Para Perder” é um arquivo dos primeiros golpes e burlas que circularam na internet portuguesa entre 2000 e 2012. O projeto divide-se em duas componentes:

O Bestiário é o arquivo curado: 100 casos documentados individualmente, com excerto real do Arquivo.pt, classificação taxonómica própria e contexto histórico. Cada caso tem uma identidade narrativa inspirada na tradição dos RPGs (Role-Playing Games) de mesa.

O Observatório é a camada analítica: um painel de dados construído a partir de 23.498 registos extraídos automaticamente da API do Arquivo.pt, que permite explorar tendências, comparar termos e ver como a linguagem da fraude evoluiu ao longo de 13 anos. O Observatório mostra o padrão; o Bestiário mostra o caso.

O site inclui ainda um glossário que descodifica os termos técnicos usados ao longo do bestiário e uma secção de recursos com ferramentas para quem quiser aprender mais sobre cibersegurança.

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Porque existe

Os estudos sobre cibercrime em Portugal têm-se concentrado sobretudo no plano jurídico e académico. Este projeto ocupa outro espaço.

“Clique Aqui Para Perder” recupera e moderniza um formato enciclopédico antigo — o bestiário — e usa-o para contar o que aconteceu de forma documentada, acessível e lúdica. Não substitui a análise técnica ou legal. Complementa-a com uma camada que normalmente falta: a narrativa.

O objetivo é promover e reforçar a literacia digital da população portuguesa e reconstruir o que a internet portuguesa era entre 2000 e 2012, com ênfase nas burlas digitais.

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O período

2000 a 2012.

Começa com o colapso da bolha dot-com e a chegada da ADSL a Portugal — internet contínua a substituir o dial-up e o som da ligação. Termina quando o Facebook atinge mil milhões de utilizadores e a internet passa de nicho a infraestrutura básica.

É o período em que a internet chegou aos portugueses. Com ela, os primeiros golpes digitais em língua portuguesa. Os que circularam nos fóruns do SAPO, nos anúncios do Clix, nos SMS com prémios falsos, nos e-mails da Caixa Geral de Depósitos que não eram da CGD.

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Para quem é

Para qualquer pessoa curiosa sobre o que aconteceu naquele período da internet.

Para investigadores, educadores e jornalistas que precisam de material documentado, referenciado e de acesso livre. Todas as fontes são verificáveis: cada ficha inclui o link original no Arquivo.pt.

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Como funciona

O bestiário organiza os casos numa taxonomia simplificada em dois níveis:

O primeiro é a Classe: o tipo geral de burla, definido pela promessa falsa que fazia à vítima. Há cinco classes. Cada uma agrupa burlas que partilham a mesma lógica do engano, independentemente do canal ou da época.

CLASSES (5 categorias)

  • 01Construtores — “Este ficheiro é o que parece.” Vírus, trojans, dialers, keyloggers, crack com malware, ransomware.
  • 02Mercadores — “Há um ganho real à sua espera.” SMS premium, prémios falsos, OLX, lotarias, empregos irrealistas, pirâmides.
  • 03Oráculos — “Sei o que o futuro reserva. Por um preço.” Videntes, magias, curandeiros, charlatanismo.
  • 04Pescadores — “É quem diz ser. Confirme aqui.” Phishing, formulários falsos, bancos clonados, roubo de credenciais.
  • 05Príncipes — “Existe uma relação entre nós. Confie em mim.” Cartas da Nigéria, romance online, falsa PSP, extorsão relacional.

O segundo é a Espécie: o mecanismo concreto da burla.

ESPÉCIES (9 categorias)

  • 01Armadilha de recrutamentoOferta de emprego fictícia usada para recolher dados pessoais, documentos de identidade ou taxas de candidatura. A vaga não existe.
  • 02Burla transacionalSimula uma compra, venda ou serviço legítimo sem intenção de cumprir. A vítima entrega dinheiro ou bem sem receber o equivalente prometido.
  • 03CharlatanismoApresentação de capacidades não verificáveis (vidência, cura, proteção espiritual) mediante pagamento.
  • 04Esquema de investimentoPromessa de retorno financeiro superior ao mercado mediante entrega de capital. Inclui pirâmides e variantes.
  • 05ExtorsãoExige pagamento mediante ameaça de exposição, dano ou bloqueio de acesso. A vítima age por medo, não por atração de ganho.
  • 06Falso prémioNotificação de ganho fictício condicionado a uma ação prévia (pagar despesas ou fornecer dados). O prémio nunca existe.
  • 07MalwareSoftware malicioso instalado sem consentimento. Rouba dados, bloqueia acessos ou usa o sistema como veículo de propagação.
  • 08PhishingSimula uma entidade legítima (banco, serviço público, plataforma) para obter credenciais ou acesso a contas.
  • 09VishingVariante do phishing por voz. A chamada telefónica substitui o e-mail, com o mesmo objetivo: extrair dados ou induzir uma transferência.

Cada caso é também classificado pelo gatilho psicológico que explora, com base nos princípios de Robert Cialdini.

GATILHOS (6 princípios de Cialdini)

AutoridadeA vítima age porque a fonte parece ser uma entidade legítima — banco, polícia, suporte técnico.
EscassezA oferta é apresentada como limitada ou urgente. A pressão do tempo reduz a avaliação crítica.
Prova social“Muitos já aderiram.” A aparência de validação coletiva legitima o esquema.
ReciprocidadeUma oferta ou favor inicial cria a obrigação percebida de retribuir.
AfeiçãoExploração de laços afetivos reais ou simulados para baixar a guarda da vítima.
GanânciaA promessa de ganho desproporcional ao esforço sobrepõe-se ao pensamento crítico.

Por fim, cada caso tem um Estado atual, que indica se a burla ainda é praticada hoje.

ativo

A burla é praticada hoje nos mesmos vetores e habitats dominantes na sociedade.

evoluído

O objetivo permanece idêntico, mas o meio tecnológico adaptou-se a uma nova plataforma.

inativo

O habitat ainda existe, mas a densidade de utilizadores é tão baixa que o esquema deixou de ser lucrativo.

extinto

O habitat ou suporte tecnológico necessário para o esquema deixou de existir.

Cada ficha inclui:

NomeDesignação narrativa da criatura
ClasseEstratégia base da burla
EspécieMecanismo técnico concreto
HabitatCanal tecnológico onde circulou
GatilhoMecanismo psicológico explorado
EstadoAtivo, Evoluído, Inativo ou Extinto
ComportamentoDescrição da atuação da burla
ExcertoTexto original recuperado do Arquivo.pt
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Método

O projeto foi construído a partir do Arquivo.pt: notícias, fóruns desativados, classificados, blogues, sites institucionais e documentos de entidades públicas. A recolha usou a API pública de pesquisa de texto completo da plataforma.

Foram construídas 200 palavras-chave a partir do vocabulário documentado da internet portuguesa entre 2000 e 2012, incluindo variantes anteriores e posteriores ao Acordo Ortográfico de 1990 e termos coloquiais da época que uma pesquisa contemporânea não recuperaria. A lista completa pode ser explorada no Observatório.

PassoDescriçãoNúmero
1Palavras-chave construídas200
2Anos analisados13 (2000–2012)
3Consultas à API2.600
4Máximo teórico (2.600 × 25)65.000
5Dados brutos obtidos32.245
6Remoção de duplicados−13.606
7Ficheiro após remoção de duplicados18.639
8Filtragem (IA): títulos vazios (−1.134) + excertos < 50 chars (−27)−1.161
9Após filtros de qualidade17.478
10Balanceamento por palavra-chave (através de IA)−15.900
11Corpus para análise manual1.578
12100 casos validados — Bestiário100
A diferença entre o máximo teórico (65.000) e os dados obtidos (32.245) deve-se à cobertura desigual do arquivo: mais esparsa entre 2000 e 2004, mais densa a partir de 2006. A diferença entre os dados brutos e os registos validados (23.498) resulta da aplicação de seis critérios de inclusão: domínio .pt, data de captura dentro do período, excerto em português com pelo menos 60 caracteres, menção explícita a fraude, mínimo de três palavras portuguesas comuns e URL único.
Todos os dados, scripts e documentação estão disponíveis em: github.com/barretoingra/clique-aqui-para-perder ↗

Após a extração automática e validação do corpus, os registos foram revistos manualmente para identificar os casos com maior potencial analítico e narrativo. A seleção dos 100 casos não foi aleatória nem exaustiva: privilegiou exemplos com excerto verificável, contexto datado e representatividade dos padrões identificados no corpus. O objetivo foi cobrir a diversidade de classes, espécies, habitats e períodos temporais com o número mínimo de casos que tornasse os padrões legíveis — 100 foi o limiar em que essa cobertura se tornou estável.